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Quid pro quo

O blog do Fernando Serapião, editor da Monolito

A silhueta e a narrativa

A imprensa norte-americana está destacando um dos mais aguardados edifícios do país nos últimos tempos, o National Museum of African American History and Culture, que será inaugurado no próximo sábado em Washington, D.C.. Em meio a tensão racial recente, seu conteúdo se torna a cada minuto mais obrigatório e, felizmente, a relevância de seu tema foi expressa na arquitetutura e em sua implantação privilegiada no National Mall, esplanada que agrega o complexo de museus Smithsonian, localizada entre o Capitólio e o obelisco.

Na semana passada, o New York Times publicou uma matéria interessante sobre o conteúdo do museu e ontem o jornal abriu espaço para um entrevista com o arquiteto, o badalado David Adjaye, nascido em Gana e criado na Inglaterra.

conversa foi conduzida pelo crítico de arquitetura Michael Kimmelman, que, na abertura, escreveu que o museu “preenche o último lote do National Mall e, com ele, preenche um buraco na história norte-americana”.

Adjaye se diz feliz com o resultado, por ter conseguido manter a forma fundamental do edifício, “fazer a silhueta do edifício no início da narrativa”, relatando que ficou fascinado com pelo motivo da coroa, expressa na fachada de três camadas de painéis perfurados e inclinados. Se a forma da coroa foi inspirada numa coluna tradicional do oeste da África, os padrões das telas perfuradas seguem o desenho criado por um escravo em Charleston, na Carolina do Sul.

“Parecia uma maneira de começar a contar uma história que se move de um continente, onde pessoas foram tiradas, juntamente com as suas culturas e usados ​​como mão de obra e, em seguida, contribuíram para criar novas culturas em outro país”, ele declarou. 

Quinta, 22/09/2016

Galiano Ciampaglia (1913-2016)

Filho de um mestre-canteiro italiano que trabalhou com Ramos de Azevedo, Galiano Ciampaglia nasceu em São Paulo, estudou no Dante Aligheri e cresceu no núcleo paulistano da colônia italiana. Influenciado pelo ofício do pai, ele estudou engenharia no Mackenzie, formando-se, em 1939, engenheiro-arquiteto (recentemente, pesquisa de mestrado realizada por Fernanda Giampaglia, sua filha, revelou que ele também possuía o diploma só de arquiteto antes mesmo da criação da Faculdade de Arquitetura, ocorrida quase uma década depois).

Ciampaglia compunha o grupo mackenzista da primeira geração de arquitetos modernos de São Paulo, formado também por Carlos Millan, Jacob Ruchti, Miguel Forte, Plinio Croce, Roberto Aflalo e Salvador Candia. Se parte deste grupo criou a loja Branco & Preto, pioneira no design moderno na cidade, e participava ativamente da vida cultural da cidade (Ciampaglia, por exemplo, era sócio-fundador do MAM), todos eram atraídos pela arquitetura produzida nos EUA. A influência norte-americana tinha várias frentes. Candia, Croce e Aflalo, por exemplo, eram mais sensíveis a produção dos alemães, ex-integrantes da Bauhaus que imigraram para a América (leia-se Mies van de Rohe e Walther Gropius). A arquitetura da Califórnia (leia-se Case Study Houses) impactou não só o grupo mas grande parte da arquitetura paulista da época, como analisa o doutorado de Adriana Irigoyen. E outra ala, da qual Ciampaglia, Ruchti e Forte faziam parte, era fascinada pela obra de Frank Lloyd Wright.

“Um dia o Miguel me disse: ‘escuta, nós gostamos do Frank Lloyd Wright, vamos abrir um escritório?’ E assim encontramos uma sala na rua Xavier de Toledo e começamos a trabalhar. O Jacob ia sempre ao escritório e às vezes trabalhávamos juntos”, ele contou, em 2003, num depoimento que deu ao departamento paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil, do qual era o sócio no30 e um de seus fundadores. “Eu encontrei o Eduardo Kneese na rua São Luís e ele me convidou para ir às reuniões de arquitetos que promovia no Edifício Esther”, ele relembrou no mesmo depoimento.

Ele é autor de belíssimas casas wrightianos – a maior parte delas criada em parceria com Forte e, infelizmente, desaparecidas ou desfiguradas. Outro projeto interessante era um pequeno edifício de apartamentos na esquina da avenida Rebouças com a Henrique Schaumann, demolido com o alargamento da via.

Mas, sem dúvida, a obra mais emblemática que ele participou é a sede do próprio IAB/SP. O projeto é fruto de um concurso cujo corpo de jurados (entre eles, Warchavchik e Niemeyer) definiu que as três equipes com os melhores trabalhos deveriam se unir para criar o desenho definitivo: nada mais simbólico para uma entidade de classe do que a construção de um projeto arquitetônico coletivo. Ainda mais quando as equipes representam correntes diferentes que formam a base da arquitetura moderna paulista: de um lado, o racionalismo europeu adaptado aos trópicos, de Rino Levi Roberto Cerqueira César; do outro, o modernismo do Rio de Janeiro, da equipe carioca formada por Abelardo de Souza e Hélio Duarte e Zenon Lotufo; e, por fim, o viés norte-americano, representado por Miguel Forte, Jacob Juchti e Galiano Ciampaglia – que era a última testemunha desta história. Discreto e recluso, sua obra foi pouco divulgada e estudada. Para sorte da historiografia paulista, sua filha teve acesso aos documentos e registrou sua produção em mestrado na USP, já citado. Na quinta-feira passada, dia 26, Galiano Ciampaglia faleceu em São Paulo, aos 103 anos de idade.

A missa de sétimo dia será celebrada dia 2 de junho, às 11h, na Paróquia São José (rua Dinamarca, 32). 

Quarta, 01/06/2016

Isay Weinfeld fará versão de restaurante icônico de NY

Isay Weinfeld deu mais um passo na consolidação de sua carreira internacional: ele venceu a concorrência para desenhar o novo restaurante Four Seasons, mítico restaurante de Nova York criado em 1959 por Philip Johnson, informou matéria publicada ontem no NYT. “Nosso novo arquiteto será como um outro Philip Johnson, mas para esse século”, declarou o proprietário do restaurante. “Ainda estou arrepiado”, ele declarou a Raul Juste Lores, em matéria na Folha de S. Paulo de hoje.

O crítico de arquitetura Paul Goldberger organizou a concorrência que escolheu o arquiteto. Primeiro, ele fez entrevistas para avaliar as pretensões dos participantes e, numa segunda fase, solicitou propostas para o espaço. Eu tive a oportunidade de presenciar o primeiro encontro entre Weinfeld e Goldberger, que se conheceram pessoalmente em 2011, quando o crítico esteve em São Paulo para participar da primeira edição do Arq.Futuro. Como curador do evento, eu acompanhei Goldberger numa visita ao escritório de Weinfeld, ocorrida numa manhã do final de novembro; em seguida, na mesma manhã, guiado pelo arquiteto, o norte-americano visitou duas obras suas, numa rua sem saída do Jardim América: uma casa e uma galeria particular.

Criado originalmente por Philip Johnson para ocupar um dos dois espaços comerciais do térreo do Seagram Building (a mais famosa torre de escritórios de Mies van der Rohe, na Park Ave.), o Four Seasons é um dos mais aristocráticos da cidade, sendo frequentado por políticos, banqueiros e empresários. O próprio Philip Johnson, que trabalhava nas redondezas, almoçava diariamente no Four Seasons. O restaurante foi inaugurado em 1959 e, na época, custou U$ 4,5 milhões! No lobby havia uma obra de Picasso de 6 x 6 metros, que já foi retirada.

Após um desentendimento entre os donos do prédio e do restaurante, o contrato não foi renovado e o restaurante funcionará até o jantar do dia 16 de junho. A maior parte das peças será leiloada.

O Four Seasons de Weinfeld ficará a mesma via, do outro lado da avenida, a quatro quadras de distância. O espaço, alugado por 15 anos, possui 1.860 metros quadrados e ocupa o térreo de uma torre de escritórios com 50 anos, renovada recentemente (o prédio, na imagem acima, é miesiano e possui 30 andares – foi criado no início dos anos de 1960 por Henry Dreyfuss e complementado na década de 1970 por uma torre contigua desenhada por Emery Roth & Sons).

A abertura está prevista para o final de 2017. 

Segunda, 30/05/2016

A elegância encarnada

“Aurelio Martinez Flores trabalha com a pureza e simplicidade próprias de sua trajetória. Aí se incluem sua origem, sua formação mexicana e seu trabalho com design. Sua obra apresenta visíveis influências do modernismo mexicano criado por Luis Barragán, que aliava a pureza do movimento moderno internacional às técnicas construtivas tradicionais de seu país, resultando numa tipologia de grandes muros com texturas que definiam espaços de poucos elementos e cores fortes. Martinez Flores iniciou sua vida profissional como designer, nos Estados Unidos, e posteriormente se transferiu para o Brasil, para implantar a produção de uma linha de design norte-americano no país. Essas duas fortes influências, a arquitetura mexicana e o design internacional, se fundiram em um trabalho claro, puro e forte”. 

Aurelio Martinez Flores, em foto de Marcos Vilas Boas para a Trip

Escrevi o parágrafo acima há quase 17 anos. Versava sobre o Gweilo, um restaurante chinês no Itaim Bibi, a duas quadras de onde era meu escritório. Por isso, acompanhei diariamente a construção. A obra não tinha placa com o nome do arquiteto. Depois de algum custo, lembro da alegria ao ouvir de um engenheiro o nome do arquiteto. Aliás, dupla alegria: foi meu primeiro esforço de reportagem – como jornalista, uma profissão nova para mim – e por confirmar o meu faro: era uma obra de Aurelio Martinez Flores.

Essa foi a primeira oportunidade de escrever sobre o trabalho dele. Na ocasião, eu me comuniquei com o escritório, visitei o restaurante quando ele ficou pronto, mas não conheci o arquiteto. Conversei com Mirna, seu braço direito. Alguns meses após a publicação do texto, recebi um telefonema dela dizendo que “seu Aurelio” queria falar comigo. Por causa do parágrafo acima, ele me convidou para participar do livro que preparava. Depois que o volume foi publicado, recebi um presente: uma cadeira desenhada por ele, que tem lugar de destaque no hall de meu apartamento.

Agora, restam as lembranças, o texto, a cadeira, o livro e as fotos. No lugar do Gweilo há um prédio e o Aurelio deixou-nos no domingo. Elegante, como sempre, foi embora sem se despedir. 

Terça, 09/06/2015

A utopia latino-americana

A exposição Identidade Latino-Americana, montada na sede paulistana da Galeria Bolsa de Arte, apresenta um recorte do trabalho de Leonardo Finotti, colaborador frequente da Monolito. São cerca de 70 imagens de oito países da América Latina, grande parte delas realizadas para a exposição Latin America in Construction: Architecture 1955-1980, no MoMA, em cartaz até julho. 

A montagem paulistana, criada por Michelle Jean de Castro, estabeleceu uma conexão entre as fotos ordenando-as a partir de coordenadas geográficas e de uma linha do horizonte imaginária. Além dos vínculos de influências e sintonias artísticas, imagens ganham força e unidade graças ao olhar de Finotti. A materialidade também colabora: as fotos, todas em preto e branco, foram impressas em ACM e emolduradas com imbuia.  

De São Paulo, há ícones como o Conjunto Nacional (de David Libeskind), o Paulicéia (de Jacques Pillon e Giancarlo Gasperini) e o Sesc Pompeia (de Lina Bo Bardi). A mostra fica em cartaz até 27 de junho na Bolsa de Artes (rua Mourato Coelho, 790, São Paulo). 

Segunda, 01/06/2015

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