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ANGELO BUCCI – SPBR ARQUITETOS


Angelo Bucci é um equilibrista, em trânsito entre seu estúdio em São Paulo e as salas de aulas, com passagens por Harvard, Berkeley e MIT. Sua obra é metade caverna, metade nave: o pé está fincado no chão, preso à história, e a cabeça quer flutuar, apoiada em volumes de estrutura de cabeça para baixo. Se o viaduto do Chá não existisse, Bucci atravessaria o vale do Anhangabaú em nível, equilibrando-se em uma corda bamba.

Com a notícia publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo de que Bucci ganhara um importante prêmio, um casal amigo escreveu para parabenizá-lo. A resposta também foi pelo carteiro: “Não há perigo nenhum de eu ficar famoso, e se eu ficasse não haveria perigo nenhum de eu não fazer o projeto de vocês. Nós já o fizemos naquelas antigas conversas em Orlândia, a distância e o tempo não haverão de distingui-las”. Localizada nas franjas de Ribeirão Preto, a residência desenhada dez anos mais tarde fica em uma rua que recende a jasmim e cuja quietude, numa manhã de sábado, se manteve imperturbável ao uma trote do cavalo de uma carroça, ao barulho das cigarras e à algazarra dos periquitos no abacateiro carregado. A estratégia “meio caverna, meio nave” está presente: a relação com a topografia é evidente nos três volumes artificiais que fazem a mediação entre o térreo e a casa elevada. Equilibrada por quatro pilares, ela possui estrutura sobre a cobertura, que a apoia e segura o piso com tirantes. “É como se estivesse de cabeça para baixo”, conta o arquiteto… (trecho de “O equilibrista”, de Fernando Serapião)
 
 
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De fato, a nossa foi sempre uma arquitetura moderna mais objetual que espacial, mais do construído do que do vazio, mais icônica do que fenomenológica. Donde a constatação de Giulio Carlo Argan, feita já no início dos anos 1950, de que se tratava de uma arquitetura visivelmente marcada pela conjugação de técnica e beleza - uma beleza por isso mesmo excessivamente objetual e contemplativa, vale dizer clássica. A contribuição muito específica da obra de Paulo Mendes da Rocha para a arquitetura nacional residiria, por isso mesmo, numa inaudita capacidade de, superando esse cacoete, desenhar não apenas o cheio (o objeto belo), mas sobretudo o vazio, arquitetônico e urbano.
 
Bucci, no entanto, não parece satisfeito – não mais, pelo menos – em partir de onde Mendes da Rocha parou. Seu ponto de partida não é sequer Artigas. Sente-se no direito (ou seria no dever?) de retroceder até Reidy e Niemeyer. O que significa dizer, até Le Corbusier… (trecho de “Espaço de risco”, de Otavio Leonídio)
 

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…O que eu gostaria de dizer é que é possível ver a cidade um pouco como se fosse um jornal do dia, o lugar onde se escreve tudo e se reescreve novamente a cada dia, ver assim para opor, à erudição e complexidade, um conhecimento necessário e raso como as trivialidades da nossa vida cotidiana, como se para as urgências das ações que temos de fazer no espaço urbano não fosse necessário saber nada além daquilo que está todos os dias estampado no jornal do dia. Uma cidade como são paulo pode ser considerada o universo completo de tudo o que já pudemos fazer e também o repertório de todas as possibilidades que poderemos vir a realizar algum dia… (trecho de “Pedra e arvoredo”, de Angelo Bucci)


COLABORADORES

Didiana Prata

Designer gráfica, deixou a arquitetura para projetar livros, jornais e revistas. Foi editora de arte da Folha de S. Paulo e da revista Elle. Mas a arquitetura não a deixou: Monolito é a primeira revista da área que ela desenha.

Erieta Attali

Fotógrafa, nascida em Tel Aviv, criada na Grécia, educada em Londres e residente em Nova York (onde leciona na Colúmbia). Mas ela se autodefine como “sem casa”. Suas fotos em preto e branco ganharam um lar na Monolito nº1.

Fernando Serapião

Editor da revista Monolito, ele trocou traços por palavras: seus textos estão em livros, jornais e revistas (é colaborador da Folha de S. Paulo e da piauí). No número inicial, equilibrou-se para escrever o perfil de Angelo Bucci.

Nelson Kon

Arquiteto que preferiu criar sua obra atrás das câmaras, o fotógrafo tem imagens incluídas na coleção Pirelli e analisadas por Simonetta Persichetti (Senac, 2004). Ele coloriu o primeiro número de Monolito.

Otavio Leonídio

Crítico e projetista de mão cheia, fez da arquitetura mais que tudo objeto de reflexão: leciona na PUC do Rio de Janeiro e é autor de Carradas de razões (Loyola, 2007). Na Monolito nº1, refletiu sobre a obra de Bucci.


SUMÁRIO

Textos
Perfil: “O equilibrista”, por Fernando Serapião
Crítica: “Espaço de risco”, por Otavio Leonídio
Ensaio: “Pedra e arvoredo”, por Angelo Bucci

Obras selecionadas
Pavilhão do Brasil Expo Sevilha (1991), Espanha
Clínica de psicologia (1995/1998), Orlândia, SP
Reforma casa Olga Baeta (1997/1998), São Paulo
Clínica de odontologia (1998/2000), Orlândia, SP
Casa em Ribeirão Preto (2000/2001), SP
Casa em Aldeia da Serra (2001/2002), Barueri, SP
Escola Jardim Ataliba Leonel (2003/2006), São Paulo
Casa em Carapicuíba (2003), Carapicuíba, SP
Casa em Santa Teresa (2004/2008), Rio de Janeiro
Midiateca da PUC/Rio (2006), Rio de Janeiro
Casa em Ubatuba (2007/2009), Ubatuba, SP
Edifício de apartamentos em Silves (2008/_), Portugal
Edifício de apartamentos em Lugano (2009/_), Suíça


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