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ANDRADE MORETTIN


Vinicius Andrade e Marcelo Morettin transformaram a diferença de personalidade em um encontro fértil entre a técnica e a criatividade. Dialogando com o passado com a mesma facilidade com que compreendem a saturação das imagens da atualidade, eles trabalham de maneira experimental os componentes industriais, usam transparências para revelar opacidades e esculpem espaços com vazios. E assim constroem uma das mais notáveis obras do atual cenário arquitetônico brasileiro.

“É confortável ser sócio do Marcelo”, avaliou Andrade enquanto saboreava uma salada de alface, rúcula e radicchio em um restaurante argentino, ao lado do cemitério da Consolação.“Ele é muito preciso, erra pouco. Eu erro muito mais”, confessou, comendo o pão com massa de parmesão que acompanhava o prato. “Temos habilidades complementares: o Vinícius é mais empírico e eu, mais cerebral”, confirmou Morettin, interrompendo a degustação de um chawarma de carne, temperado com tomate e salsinha, em um restaurante árabe na praça Villaboim, em Higienópolis. Eles estão unidos pela diferença de personalidades, cimentada pelo reconhecimento do talento mútuo. No escritório, sentam-se frente a frente em mesas com a lateral encostada na parede. Mas é difícil vê-los cara a cara, pois em geral estão junto com a equipe ou fora, reunidos com clientes. (trecho de "O encontro", de Fernando Serapião)
 
 
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Na residência na praia de Itamambuca, também organizada em dois volumes, a ação de projeto se inicia pela relação entre eles, um inserido no outro, e não mais justapostos. Um contêiner metálico abriga em seu interior um bloco de madeira, como a protegê-lo das fortes intempéries do litoral paulista. A construção externa é conformada como a dobra de um plano de telhas trapezoidais de aço nas laterais menores e na face superior do paralelepípedo. Nas duas laterais maiores, a transparência da tela metálica (estruturada por gigantescos caixilhos pivotantes) esvazia o sentido de massa e permite a visão do segundo volume dentro do primeiro. Naquele, a opacidade e o calor da madeira, material dos painéis e da estrutura, conformam um refúgio doméstico aconchegante e contrastante com o metal a sua volta. (trecho de “Tênue transparência”, de Renato Anelli)
 

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É como se bastasse acendê-los – como se diz de um balão de São João – para que seu sentido e configuração surgissem diante de nós, num estalar de dedos. Mas a aparente simplicidade da operação seria enganosa se víssemos aí um ideal de transparência: uma trama que organizasse as edificações num movimento em que dentro e fora quase coincidissem, já que a ênfase dos projetos recairia sobre seus aspectos mais estruturais.
 
O que acontece em boa parte dos projetos da Andrade Morettin Arquitetos é quase o contrário. Vistos à noite, iluminados internamente, suas casas e edifícios parecem seres tolerantes, como animais que admitissem dentro de si a existência de outros animais, numa convivência pacífica e algo desordenada, que prescinde sem problemas de uma unidade rigorosa. A Residência R.R. (Itamambuca, SP) ajuda a compreender bem esse partido, adotado com certa freqüência pelos arquitetos, e acredito que a atenção a esse projeto possa esclarecer a concepção mais ampla que norteia os trabalhos do escritório. (trecho de “A experiência de morar”, de Rodrigo Naves)
 


COLABORADORES

Ana Ottoni

Depois de crescer e se formar em ambiente brutalista, Ana passou a focalizar seres humanos em suas brandas lentes. Para Monolito nº2, ela retratou em preto e branco Andrade e Morettin no apartamento 22 da rua Fidalga.

Renato Anelli

Ele pensou no texto para Monolito nº2 guiando na rodovia dos Bandeirantes, indo e voltando para São Carlos onde ensina no Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos (USP). De forma transparente, sua análise é a flor da pele.

Rodrigo Naves

Jornalista que se encontrou na crítica de arte, ele é autor de Forma difícil (Ática, 1997). Naves colabora na piauí e na Serrote e, para Monolito nº2, iluminou a obra da dupla com o mesmo fascínio de uma fogueira de São João.


SUMÁRIO

Textos
Perfil: "O encontro", de Fernando Serapião
Crítica: “Tênue transparência”, de Renato Anelli
Ensaio: “A experiência de morar”, de Rodrigo Naves

Obras selecionadas
Casa P. A. (1997/1998), Carapicuíba, SP
Reforma e ampliação da Faculdade de Medicina da USP (1998/_), São Paulo
Casa M. M. (2001/2003), São Roque, SP
Escola pública (2003/2004), Campinas, SP
Edifício de apartamentos na rua Aimberê (2005/2008), São Paulo
Casa R. R. (2006/2007), Ubatuba, SP
Casa A. B. (2006/2009), São Paulo
Casa F. S. (2006/2009), Avaré, SP
Habitação social (2007/_), Recife
Centro de informações Comperg (2008/_), Itaboraí, RJ
Edifício de apartamentos na rua Fidalga (2008/2011), São Paulo
Edifício de escritórios na rua Wizard (2009/_), São Paulo
Edifício residencial na rua Marcos Lopes (2010/_), São Paulo
Casa T. R. (2010/_), Carapicuíba, SP


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