English

MARCIO KOGAN - STUDIO MK27 (EDIÇÃO 5/6)


Prestes a completar 60 anos e dirigindo um escritório com 16 arquitetos colaboradores, Marcio Kogan realiza, com dilemas e idiossincrasias, uma das obras mais aclamadas da arquitetura brasileira da atualidade. Ela é o resultado de um embate em que a arquitetura venceu o cinema, não sem que antes a produção cinematográfica fosse alimentada pela leitura do ambiente construído e o trabalho arquitetônico pudesse ser comparado a um cenário que se une ao roteiro. Hoje, em Kogan vs. Kogan, não há dúvida quanto a quem é o vencedor.

Como se fosse mágica, a porta com um visor de 40 centímetros de diâmetro abriu-se antes do toque na campainha. Era uma segunda-feira do início de outubro passado, e o expediente começava mais cedo do que o habitual, com a reunião que encabeçava a agenda marcada para as 8h30. Em três segundos de movimento, a porta girou 90 graus para revelar os 21 degraus revestidos com fórmica branca que levam até a recepção do escritório de Marcio Kogan. Colaboradora do estúdio há três anos e meio, Maria Cristina Motta foi a primeira a chegar para o encontro via Skype com o gerente do projeto de um condomínio no litoral do Vietnã. Ela estivera no escritório no domingo para analisar os comentários escritos pelo gerente no próprio power point. Dez minutos depois a porta mágica abriu novamente para a entrada de outra arquiteta envolvida no projeto. Mariana Simas, que se integrou à equipe junto com Cristina, perguntou para a colega sobre o teor dos comentários. “A maioria dá para resolver. O problema é que eles não querem mais a laje contínua”, revelou Cristina, favorecida pelo desânimo da alvorada do primeiro dia útil da semana. “Como assim?”, retrucou Mariana. “Eles querem as casas isoladas! Vamos ter que mudar tudo”, Cristina explicou.
 
A copeira entrou na sala de reunião oferecendo água, café e a primeira leva de sucos naturais (de abacaxi). Ela arrumou as folhas de papel manteiga A4, que ficam no centro da mesa oval, e completou o porta-canetas. Sem sucesso, as arquitetas chamaram o gerente pelo Skype. Eram quase dez para as nove quando Marcio Kogan subiu a escada, vestindo calça preta e, fugindo do hábito, camisa polo azul-escura (o uniforme diário de quase toda equipe é o preto), o cabelo grisalho molhado pelo banho matinal. O contato com o outro lado do planeta foi estabelecido. O gerente é inglês e mora em Hong Kong. O encontro virtual foi conduzido pelas meninas, cada uma sentada de um lado da tela do Macintosh da sala de reuniões principal. Elas analisaram os comentários, página por página. O gerente pediu, por exemplo, para não usarem nas perspectivas figura humanas com populares locais. Elas acharam graça, mas ele não percebeu. Quando chegou o tópico das lajes contínuas, elas desanimaram. “Vai mudar tudo!”, uma dizia para a outra, em português. Do outro lado da mesa, Kogan pegou algumas folhas de papel e começou a propor adaptações no projeto com desenhos esquemáticos. Fez dois ou três. “Não fica ruim assim”, disse para as colaboradoras, que aproximaram o croqui da câmera acoplada no computador. Junto com o som de marretadas que estremeciam o prédio, veio a resposta do inglês: “Assim pode ser”. (trecho de "Kogan vs. Kogan", de Fernando Serapião)
 
 
*
 
A obra de Marcio Kogan é a renovação do surpreendente fenômeno brasileiro de ter uma arquitetura ao mesmo tempo universal e nacional. Uso “surpreendente” de forma irônica, é claro, e como uma referência ao comentário do grande crítico suíço Siegfried Giedion de que havia algo de “irracional” na nossa arquitetura. Essa opinião, que expressa no prefácio ao livro Arquitetura moderna brasileira (1956), de Henrique Mindlin, faz parte de uma série de objeções àquilo que muitos viam como a superficialidade da arquitetura no nosso país. Como podia uma nação periférica ter tanta qualidade e influência – como de fato teve – se não por sorte e improvisação, já que se tratava do mundo sofisticado e culto da arquitetura moderna? Essa percepção foi se fortalecendo ao longo dos anos por fenômenos tão irracionais quanto a dor de cotovelo de muitos estrangeiros pelos nossos êxitos, ou tão racionais como a constatação da falta de embasamento teórico.
 
Talvez no seu auge, nos anos 1950/60, nossa arquitetura, como a bossa nova, quisesse simplesmente refletir uma sociedade hedonista e cordial. Hoje, o Brasil mudou de patamar. Como sétima economia do mundo, síntese do que se espera do desenvolvimento sustentável – com a busca pelo equilíbrio entre o econômico, o social e o ambiental – e enfrentando simultaneamente os desafios da pobreza e da riqueza, não se pode mais falar em país periférico e distante. E nossa arquitetura também mudou de patamar? Temo que não. Mas se há algumas opções otimistas a essa negativa, uma é certamente a obra de Marcio Kogan. (trecho de "Mudança de patamar", de André Corrêa do Lago).
 
 
*
 
Essas peças produzidas dentro da absoluta necessidade de sobreviver no canteiro de obras desempenham papel essencial no cotidiano dos trabalhadores da construção civil. São objetos dotados da máxima eficiência, embora feitos com parcos recursos e precariedade técnica. As engenhocas aqui apresentadas mostram as possibilidades de recombinação de materiais e produtos, indicando um reúso criativo e absolutamente funcional. As práticas de reutilização estão muito próximas da espontaneidade da vida cotidiana e da arte popular brasileira e seu imenso potencial criativo. Lina Bardi documentou aspectos dessa herança na célebre exposição A Mão do Povo Brasileiro, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1969. São peças que comunicam e representam a necessidade humana e que nos ensinam sobre design. (trecho de Refazendo tudo, de Maria Cecília Loschiavo dos Santos)
 


COLABORADORES

André Corrêa do Lago

Conselheiro de Monolito, é embaixador e crítico de arquitetura. Nos intervalos das viagens que realiza para a preparação da conferência Rio +20, entre a China e o Panamá, Lago milagrosamente conseguiu tempo para analisar a obra de Kogan.

Maria Cecília Loschiavo dos Santos

Professora da FAU/USP e especialista em design, Maria Cecilia analisa nesta edição de Monolito as adaptações que Kogan e a equipe fizeram em móveis encontrados nos canteiros de obras.

Nelson Kon

Fotógrafo com formação de arquiteto, Kon é o responsável pela maior parte da documentação da obra de Kogan. Neste número, suas fotos mais recentes, da Casa Toblerone, são de dar água na boca.

Pedro Vannucchi

Depois de conviver em ambiente arquitetônico e formar-se em arquitetura na escola desenhada por Artigas, Pedro optou pela fotografia. São suas as fotos da Casa Osler, em Brasília, e da loja Decameron, em São Paulo.

Reinaldo Cóser

Fotógrafo publicitário, Cóser focou o universo arquitetônico após o contato com Kogan, que desenhou seu estúdio e sua residência. É autor do registro da casa de Punta e de um ensaio da casa de Paraty.

Rômulo Fialdini

Fialdini começou a carreira no Masp, fotografando o arquivo de Lina Bo Bardi no início dos anos 1970. Nesta edição de Monolito, são dele os portraits de Marcio Kogan e da equipe do studio mk27.


SUMÁRIO

Textos
Perfil: "Kogan vs. Kogan", por Fernando Serapião
Crítica: "Mudança de patamar", por André Corrêa do Lago
Ensaio: "Refazendo tudo", por Maria Cecília Loschiavo dos Santos
História em quadrinhos: "China box", por studio mk 27

Linha do tempo
Edifício Ijis (1976/1978), São Paulo
Casa Goldfarb (1986/1988), São Paulo
Casa Gama Issa (1999/2001), São Paulo
Estúdio Cóser (1999/2001), São Paulo
Concurso Igreja PUC (2001), Campinas, SP
Uma Higienópolis (2002), São Paulo
Agência Praça (2003), São Paulo

Obras selecionadas
Casa Osler (2003/2009), Brasília
Casa Corten (2004/2008), São Paulo
Primetime (2004/2007), São Paulo
Micasa Volume B (2006/2007), São Paulo
Casa Paraty (2006/2009), Paraty, RJ
Casa da Bahia (2007/2010), Salvador
Casa Cobogó (2008/2011), São Paulo
Casa Toblerone (2008/2011), São Paulo
Decameron (2008/2011), São Paulo
Casa de Punta (2008/2011), Punta del Este, Uruguai
Studio SC (2008/2011), São Paulo
Casa dos Ipês (2009/2011), São Paulo
L-And Reserve Hotel (2010/_), Mourão, Portugal
Praça Zózimo do Amaral (2011/_), Rio de Janeiro
Concurso acesso ao metrô (2011/_), San Sebastián, Espanha
Concurso para habitação social / Renova SP (2011), São Paulo
Caledonian Somosaguas (2011/_), Pozuelo de Alarcón, Espanha
Turquoise (2011/_), Ilha Tuan Chan, Vietnã


Copyright 2011 - 2017 • Editora Monolito • Todos os direitos reservados
Criação de Sites - Célula Ideias