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HABITAÇÃO SOCIAL EM SÃO PAULO


Há sete anos Elisabete França está na espinhosa trincheira de favelas, loteamentos ilegais, cortiços e áreas de mananciais. Ela é responsável na prefeitura de São Paulo por cuidar de habitação social, um dos mais graves problemas da metrópole. O sucesso de seu desempenho está baseado na combinação de um orçamento mais robusto (cresceu 12 vezes em oito anos) e uma metodologia de trabalho que, entre outras coisas, valoriza a atuação dos arquitetos.

“Oi, Bete, você já leu o Diário Oficial?” A pergunta de Eduardo Jorge, secretário do Verde e do Meio Ambiente da cidade de São Paulo, marcou o início do expediente de Elisabete França em uma manhã de novembro passado. Ao ouvir a negativa, Jorge teve o prazer de ser o porta-voz da boa nova que sua colega de governo, secretária adjunta e superintendente de Habitação Popular da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), esperava receber havia cinco meses: finalmente, estava publicada a autorização para o corte de árvores que impediam a construção de um trecho de um conjunto habitacional na favela do Real Parque (ou, em nome do politicamente correto, a construção de um conjunto de habitação de interesse social na comunidade do Real Parque). (trecho de "A Guerrilheira Urbana", de Fernando Serapião)
 
 
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Favelas, baraccopoli, slums, borgate, bidonvilles, townships: hoje, mais de 1 bilhão de pessoas no planeta vivem em assentamentos informais. E a esse número se somará meio bilhão de habitantes nos próximos 50 anos.
 
E são tamanhas a dimensão demográfica e a extensão geográfica desses assentamentos informais que hoje não se pode mais considerá-los um apêndice involuntário ou uma excrescência degenerativa das metrópoles e cidades. Pelo contrário, em todos os cantos do planeta, têm se tornado parte fundamental, ou consubstancial, da cidade contemporânea. (trecho de "São Paulo Calling", de Stefano Boeri e Lorenza Baroncelli)
 
 
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Para evitar imprevistos de pré-estreia, o arquiteto Marcos Boldarini chegou às 13 h na favela Cantinho do Céu. Às 20 h, haveria a primeira projeção cinematográfica do bairro, a exibição de O auto da compadecida, de Guel Arraes, em um telão ao ar livre, às margens da represa Billings.
 
A líder comunitária Vera Lúcia Basalia, 61 anos, 23 deles vividos na região, dizia que jamais tinha estado em um cinema, carência comum entre os 40 mil habitantes do Cantinho, população pouco maior que a do bairro paulistano de Higienópolis. Não é difícil imaginar que 99% das salas de cinema da cidade ficam em shoppings ou em bairros no pequeno cinturão nobre da capital. (trecho de "A primeira sessão de cinema", de Raul Juste Lores)
 
 
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É difícil descobrir quais as ações próprias e impróprias a serem operadas sobre essas configurações que denominamos áreas urbanas críticas; é difícil encontrar padrões e regras por trás dessa realidade. No entanto, podemos intuir que existe uma lógica nas configurações de ocupação, resultado da transposição dos lugares de origem, da topografia, da necessidade, universo do qual há de se fazer a triagem e descarte das patologias.
 
É paradoxal que um país como o Brasil, com tantas urgências habitacionais, possivelmente a maior aceleração na formação de territórios urbanos, tenha poucos exemplos destacados sobre essa problemática. (trecho de "Áreas urbanas críticas", de Héctor Vigliecca)
 


COLABORADORES

Daniel Ducci

Ducci lançou-se em carreira solo como fotógrafo de arquitetura depois de trabalhar como assistente de Nelson Kon. Nesta edição de Monolito, são dele as imagens do Cantinho do Céu e do conjunto Alexandre Mackenzie.

Fábio Knoll

Ele começou a se interessar por fotografia nos primeiros anos do curso de geografia na USP. Nesta Monolito é o autor do ensaio sobre os cortiços e a mudança de moradores para o Alexandre Mackenzie.

Héctor Vigliecca

Um dos mais importantes arquitetos em atividade no país, Vigliecca é especialista em habitação social desde sua juventude no Uruguai. Para este número de Monolito, contribuiu com um artigo sobre o tema.

Raul Juste Lores

Editor do caderno de economia da Folha de S. Paulo, Lores foi premiado em 2011 pela Associação Paulista de Críticos de Arte na categoria difusão da arquitetura. Ele revelou a Monolito suas impressões sobre o Cantinho do Céu.

Stefano Boeri

Ex-editor das revistas italianas Domus e Abitare, Boeri trabalha na Secretaria da Cultura de Milão. Para esta edição, escreveu um manifesto sobre assentamentos informais, tema da exposição que ele inaugura em janeiro na cidade.


SUMÁRIO

Textos
Perfil: "A guerrilheira urbana", de Fernando Serapião
Manifesto: "São Paulo calling", por Stefano Boeri e Lorenza Baroncelli
Ensaio: "A primeira sessão de cinema", de Raul Juste Lores
Artigo: "Áreas urbanas críticas", de Héctor Vigliecca

Ensaio fotográfico
Fábio Knoll

Obras selecionadas
Andrade Morettin Arquitetos
Base 3/ José Paulo Gouvêa/ Luís Antônio Jorge
Boldarini Arquitetura e Urbanismo
Brasil Arquitetura
Escritório Paulistano de Arquitetura
Levisky Arquitetura
Libeskindllovet Arquitetos/ Jansana, de la Villa, de Paauw, Arquitectes
Marcos Acayaba/ H+F Arquitetos
MAS Urban Design ETH/ PMA Arquitetura
MMBB Arquitetos/ H+F Arquitetos
Mônica Drucker/ Ruben Otero/ Ciro Pirondi
Una Arquitetos
Vigliecca & Associados


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