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CASA DE ARQUITETO


R$ 84,00
Um laboratório – é assim que com frequência se vê a casa de arquiteto, a construção que ele cria para uso próprio. Afinal, sem clientes por perto, o projetista experimenta tecnologias, formas e espaços. Mais do que isso, pode ser, voluntariamente, cobaia de uma nova forma de vida, com arranjos domésticos inovadores. Por essa ótica, a casa de arquiteto é capaz de gerar uma utopia particular carregada por idealismo, propondo universos paralelos que sobrevivem a seus autores. Mas a contrapartida da liberdade talvez seja a angústia: agora que você pode fazer tudo, vai fazer o quê?

A placa que anuncia o limite dos municípios de Cotia e Carapicuíba é a senha para entrar na primeira travessa à esquerda. Eu sei que meu percurso de pouco mais de 20 quilômetros, saindo de São Paulo e trafegando sobre o asfalto, está chegando ao fim. Depois da curva, a pavimentação muda para pequenas pedras que, colocadas de forma artesanal, diminuem a pressa de quem está chegando. A rua tem nome de estrada e seu primeiro imóvel é uma casa transformada em lar de idosos, sugerindo que a região é um bom lugar para o retiro de quem, no último período, busca paz e tranquilidade. Já os vizinhos do asilo, não, buscam segurança e status. São pequenos condomínios de casas repetidas. Esse modelo estabelecido por paulistas endinheirados para viver longe da metrópole trava, num coro cacofônico, verdadeira disputa pela estridência: muros de mais de quatro metros ou elementos arquitetônicos ligados ao imaginário campestre, desde simulacros de châteaux franceses a casas de madeira do subúrbio norte-americano. Se, de uma forma geral, esse esquema habitacional elitizado alterna-se com glebas na periferia e suas precárias ocupações irregulares, na estrada de pedras essa dualidade não existe. Além das residências nobres há somente massa arbórea, espécies nativas ou exóticas que nos conectam imediatamente ao pitoresco. Alguns metros após o veículo trepidar sobre as pedras irregulares, uma cancela com guarita colabora para espantar gatunos. A rua desce, com pouca declividade e delicadeza. Do lado direito da via, um portão singelo de madeira, típico do meio rural, é recoberto por vegetação. Completando o cenário bucólico, um sino faz as vezes de campainha. Vinte metros adentro, encoberta por um jardim frondoso, a arquiteta Cris Xavier colocou parte do corpo para fora de uma pequena construção e gritou: “Entra!”. (trecho de "Espelhos de pedra", de Fernando Serapião)
 
 
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Com sua harmoniosa luz e geometria, densidade e aparente leveza, a Casa de Vidro, projetada por Lina Bo Bardi (Roma, Itália, 1914 – São Paulo, Brasil, 1992) no bairro do Morumbi, São Paulo, é uma das mais belas residências de arquitetos. É também uma das mais importantes obras da arquitetura latino-americana do século 20, forjando ideias e temas que posteriormente seriam desdobrados e retrabalhados em projetos como o Masp – Museu de Arte de São Paulo (1957–1968), na avenida Paulista, e o Sesc Fábrica da Pompeia (1977–1982), um enorme complexo multidisciplinar que ocupa o local de uma antiga fábrica. Lina Bo Bardi compartilhava a Casa de Vidro com seu marido, Pietro Maria Bardi, um respeitado crítico e historiador de arte. Sua construção foi concluída em 1951, ano em que Lina naturalizou- se brasileira e aproximadamente cinco anos após sua emigração de uma Itália devastada. No pós-guerra, Lina escreveu que “na Europa, a casa do homem ruiu”. Porém, do mesmo modo como a ruína alegoriza a perda, a Casa de Vidro olha para fora, para a floresta tropical que a circunda, com um desafiador otimismo, simbolizando renascimento e renovação. A casa parece estar, ao mesmo tempo, plantada e flutuando serenamente sobre o ambiente natural, combinando a mesma estabilidade e leveza que a arquitetura de Lina Bo Bardi imprimiu no vão livre do Masp e nos cavaletes de vidro projetados para a exposição das obras de arte no museu. (trecho de "O interior está no exterior", de Hans Ulrich Obrist)
 
 
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A insólita esfera poderia parecer uma nave espacial, um óvni ou uma esquisitice temporária. Mas não assusta nem surpreende mais. A casa-bola que o arquiteto Eduardo Longo concluiu há exatamente dez anos já se incorporou definitivamente à paisagem paulistana. Encravada num dos pontos mais valorizados da cidade – perto do cruzamento das avenidas Europa e Brigadeiro Faria Lima, onde também está o edifício Dacon –, virou um marco de referência na cidade, e até objeto do olhar ao mesmo tempo curioso e tímido de turistas munidos de máquinas fotográficas nos fins de semana.
 
O que pouca gente conhece é a história que existe por trás da casa – antes, durante e depois. Uma história que vale não apenas por ter gerado um projeto arquitetônico ainda hoje revolucionário, mas também por todas as reflexões que propicia sobre o que é morar bem na cidade grande. Quanto mais espaço, melhor? Quanto mais privacidade, melhor? Quanto mais signos de poder e dinheiro ela contiver, melhor? São essas perguntas e suas rotineiras respostas que Eduardo Longo questiona.
 
Sua arquitetura reflete sua trajetória de vida, mostrando transformações pessoais profundas em períodos de tempo relativamente curtos. Para facilitar a compreensão do enredo, vamos dividir essa história por momentos. (trecho de "A casa-bola, uma trajetória de vida", de Adélia Borges)
 
 
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O filósofo e escritor romeno Mircea Eliade nos ensina no livro O sagrado e o profano que a eterna nostalgia do homem é habitar um “mundo divino”. Construir uma casa envolve a própria existência do homem: terá que criar seu próprio “mundo” e assumir a responsabilidade de mantê-lo e renová-lo. Toda nova morada equivale a um novo começo, a uma nova vida.
 
Nos anos 1960, meu pai comprou este terreno, uma área de 2.150 metros quadrados. Desejava construir uma casa para morarmos. Encomendou o projeto ao arquiteto mineiro Raimundo Rocha Diniz, autor de residências modernas. Porém, simultaneamente, a família de minha mãe decidiu construir um edifício de apartamentos na rua dos Ingleses, onde outrora fora a casa dos meus antepassados, uma bela mansão em estilo mourisco projetada pelo arquiteto italiano Ettore Battisti. Esse fato fez com que trocassem o sonho da casa pelo do apartamento. Papai veio a falecer pouco depois. E o terreno ficou esquecido. (trecho de "Magnólias 70", de Marlene Milan Acayaba)
 


COLABORADORES

Adélia Borges

Jornalista especializada em design, Adélia Borges elaborou o projeto conceitual do Pavilhão das Culturas Brasileiras, no parque Ibirapuera. Monolito traz uma reportagem histórica que ela escreveu sobre a casa-bola, de Eduardo Longo.

Ana Ottoni

Fotógrafa com formação de arquiteta, Ana cresceu na casa de concreto desenhada por seu pai, David Ottoni. O ensaio fotográfico da residência faz parte do mestrado em fotografia que ela desenvolve na Faap.

Hans Ulrich Obrist

O curador suíço foi eleito em 2009 pela Art Review o nome mais influente do mundo da arte. Ele é o responsável pela mostra O Interior está no Exterior, que transformou a Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, em um museu temporário.

Leonardo Finotti

Autor da reforma do apartamento em que mora, em São Paulo, Finotti tem formação de arquiteto e também é filho de um profissional da área. Fez praticamente todas as fotos das casas deste número, de Manaus a Belo Horizonte.

Marlene Milan Acayaba

Autora do clássico Residências em São Paulo: 1947-1975 (reeditado pela Romano Guerra em 2012), Marlene escreveu para Monolito um depoimento sobre a casa em que vive há 38 anos, desenhada por Marcos Acayaba.


SUMÁRIO

Textos
Cenas da vida: "Espelhos de pedra", de Fernando Serapião
Artigo: "O interior está no exterior", de Hans Ulrich Obrist
Reportagem: "A casa-bola, uma trajetória de vida", de Adélia Borges
Depoimento: "Magnólias 70", de Marlene Milan Acayaba

Ensaios fotográficos
Ana Ottoni, Nelson Kon

Arquitetos
Eduardo Longo, Casa-bola, São Paulo
Marcos Acayaba, Casa Milan, São Paulo
Allen Roscoe, Casa-galpão, Belo Horizonte
Guilherme Paoliello, Casa na Granja Viana, Carapicuíba, SP
Marcelo Ferraz, Casa Ubiracica, São Paulo
Carla Juaçaba e Mário Fraga, Casa-ateliê, Rio de Janeiro
Roberto Moita, Casa da Selva, Manaus
Anderson Freitas e Juliana Antunes, Casa Juranda, São Paulo
Cristina Xavier, Casa na Vila Taguaí, Carapicuíba, SP
Danilo Terra e Juliana Assali, Casa Maracanã, São Paulo


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