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FRANCISCO SPADONI


R$ 89,00
Tal como um piloto de Fórmula 1, cuja virtude mais notável não é só saber pisar fundo no acelerador, mas, sobretudo, ter controle absoluto nas reduzidas, Francisco Spadoni domina a velocidade de sua via profissional com astúcia. Seja na reflexão teórica – como professor da Universidade de São Paulo (USP) e do Mackenzie –, seja na prática profissional (à frente do escritório Spadoni AA), sua trajetória é sui generis.

“Vocês têm que fazer logo a livre-docência! Os alunos adoram vocês! Vocês são o futuro desta merda!” Com expressão de espanto, Francisco Spadoni e Angelo Bucci escutaram a cobrança de uma professora-titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). A reivindicação interrompeu a conversa que ocorria no final do primeiro lance das rampas do prédio de Artigas. “Eu vou cobrar!”, ela continuou a falar e, sem ouvir resposta, desceu a rampa para participar de uma assembleia no auditório do subsolo naquele começo de tarde do início de agosto passado. Antes de partilhar o mesmo destino, Spadoni terminou, sem atropelo, a história que envolvia o interlocutor: ouviu menções elogiosas a Bucci em uma palestra recente nos Estados Unidos.
 
O gélido concreto da faculdade estava com a temperatura mais baixa do que habitual com a ausência do calor dos alunos, que não voltaram das férias. O som estridente a ecoar no vazio vinha da obra de recuperação do prédio. Dez letras penduradas sobre a cabeça de quem entra no edifício sem portas decodificavam a tranquilidade: “FAU em greve”, anunciava a faixa estendida na varanda da biblioteca. Desde o final de maio, o curso de arquitetura e urbanismo acompanhou a paralização da universidade. (trecho de "O velocímetro", de Fernando Serapião)
 
 
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Primeiro ato: Parque Dom Pedro II
Floresta na Cidade é um projeto em dois atos: o que pensa como hipótese e o que  propõe como solução. No primeiro ato, a proposta para o Concurso para o Novo Centro de São Paulo em 1996, recriada para a Bienal de Arquitetura de 1997, a floresta surgia como mediadora entre espaços intersticiais e vias elevadas, recriando uma imagem de natureza, que, neste espaço e condição, é tudo, menos natural. Seu pressuposto era a impossibilidade de uso do que ainda chamamos de Parque Dom Pedro II, após seu esfacelamento histórico causado pelas grandes estruturas elevadas e construções oportunistas, erguidas a partir da década de 1960. Mas sua decadência como área de convívio pública já se iniciara muito antes disso. O concurso se estendia muito além do perímetro do parque, mas nesta área as questões eram mais contundentes, ao menos para o problema que decidimos enfrentar. (trecho de "Floresta na Cidade: manifesto sobre o que sobrou", de Francisco Spadoni)
 
 
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A série de pavilhões urbanos que desenhamos para a Hyundai formam parte de um processo que se inicia em 2009 com o projeto experimental Morumbi. Três temas guiaram o processo: para a cidade, o edifício como instalação; para a arquitetura, a flexibilidade do programa; para a construção, uma matriz tecnológica reprodutível. Este, aliás, é o elemento aglutinador de todos os trabalhos e transformou um problema técnico num elemento de linguagem: um volume transparente montado pela junção entre perfis de aço e vidro aplicado sem caixilhos. Uma redução, por assim dizer, onde um grande volume se resolve com pouca matéria. Neste sentido, o experimento (Pavilhão Morumbi) é a síntese de todos os trabalhos. (trecho de "Além do programa", de Francisco Spadoni)
 
 
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Analisar a obra de Francisco Spadoni a poucas semanas da inglória Copa do Mundo poderia parecer uma infeliz coincidência. Construir a história traçando uma analogia com o time vencedor tornou-se impossível. O desempenho da seleção brasileira num evento tão esperado anulou a possibilidade de associar os trabalhos do arquiteto com a celebração de um sucesso e também de apresentar sua arquitetura como um exemplo do inexorável desenvolvimento do país. Ademais, a maior parte da imprensa internacional continua a promover a imagem do Brasil como nação de arquitetura essencialmente exótica ou a criticar a imaturidade e as grandes contradições da complexa sociedade brasileira. Por isso, a impossibilidade de contar uma fábula com final feliz converte-se numa oportunidade interessante: construir uma história menos banal da relação entre a arquitetura e o país nesta fase de desenvolvimento econômico contraditório. Uma interpretação que, além dos registros superficiais que vêm do exterior e com os quais todos estão habituados, tenha como propósito determinar, justamente por meio de uma observação “de fora” do país e de sua relação com o mundo, questões cruciais que se colocam para a arquitetura brasileira contemporânea. (trecho de "O herege da classe média", de Roberto Zancan)
 
 


COLABORADORES

Fernando Serapião

Para escrever o perfil de Francisco Spadoni, o editor de Monolito acompanhou a rotina em seu estúdio no Sumaré e na academia, tanto na graduação como na pós-graduação. Contudo, em vez de aulas, presenciou uma assembleia da greve.

Leonardo Finotti

Autor das fotos do Pavilhão Hyundai do Morumbi, obra finalista do World Architectural Festival, Finotti conseguiu deixar evidente a potente transparência, que quase evapora o volume.

Nelson Kon

Kon conhece Spadoni desde a década de 1980, dos jogos entre faculdades de arquitetura. Nesta edição, são dele as fotos do Centro Paula Souza e do Edifício Modesto Carvalhosa.

Roberto Zancan

Arquiteto formado em Veneza, Zancan é radicado em Montreal e foi vice-diretor da revista italiana Domus. Para esta edição da Monolito, ele escreveu um ensaio sobre o trabalho de Spadoni.

Tiago de Oliveira Andrade

Formado em 2003 no Mackenzie, desde então Andrade trabalha com Spadoni, de quem se tornou sócio em 2010. Além de projetar, também fotografa. São suas as imagens do Parque Tancredo Neves e da Hyundai do Aeroporto.


SUMÁRIO

Texto
Perfil: "O velocímetro", de Fernando Serapião
Manifesto: "Floresta na Cidade: manifesto sobre o que sobrou", de Francisco Spadoni
Pavilhões urbanos: "Além do programa", de Francisco Spadoni
Ensaio: "O herege da classe média", de Roberto Zancan

Obras selecionadas
Novo Centro de São Paulo (1996), São Paulo
Concurso Marginais (1999), São Paulo
Monumento aos Imigrantes e Migrantes (2000), São Paulo
Mackenzie Tamboré (2002), Barueri, SP
Plano-diretor campus Mackenzie e Edifício Modesto Carvalhosa (2000/2006), São Paulo
Parque Tancredo Neves (2006/2012), Vitória
Sede do SINDPD (2007/2009), São Paulo
Pavilhão Hyundai Morumbi (2009), São Paulo
Pavilhão Hyundai Rio (2011/_), Rio de Janeiro
Pavilhão Hyundai Aeroporto (2012/2013), São Paulo
Centro Paula Souza and Etec Santa Ifigênia (2009/2013), São Paulo
Escola 20 × 20 (2012), Rio de Janeiro
Casa Cayowaá (2010), São Paulo


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