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ARQ.FUTURO: A CIDADE E A ÁGUA


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A cidade não vive sem água. Contudo, a urbe precisa de uma quantidade equilibrada do líquido: a vida fica insuportável se a substância for escassa ou abundante. Longe dos extremos, a relação estável entre a cidade e a água garante a qualidade de vida no meio urbano. Diante deste cenário de equilíbrio e desequilíbrio entre cidade e água, que lições Piracicaba pode dar? Como revitalizar uma favela tendo a água como aliada? Ao debater estas e outras questões, o Arq.Futuro: a cidade e a água fomenta a discussão sobre uma das questões mais urgentes da contemporaneidade.

Não foram poucos os que pensaram que uma coisa seria consequência da outra: o Arq.Futuro trataria das relações entre as cidades e suas águas por São Paulo atravessar uma crise hídrica severa. Sempre que esta associação de ideias tem sido expressa, tratamos logo de esclarecer: a abordagem do tema não depende da instalação de uma situação que acabou ganhando destaque na mídia, além de esquentar o processo eleitoral. Discutir A Cidade e a Água, decisão tomada em 2013 pelo Arq.Futuro, quando os reservatórios de São Paulo ainda estavam cheios, é para nós um imperativo.  E decorrência natural do nosso trabalho. (trecho de "Um tema que não se esgota", Equipe Arq.Futuro)
 
 
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“Mais um?”, ofereceu o garçom, equilibrando a bandeja com sete copos de chope com colarinho cremoso. Os animados integrantes da mesa do bar beira-rio de Piracicaba, cidade localizada a 140 quilômetros da capital paulista, gesticularam aceitando a oferta sem interromper a conversa. A noite caía no primeiro domingo de agosto passado e, seguindo o roteiro do fim de semana, a animação borbulhava em quase dois quilômetros na margem sul do rio que corta e batiza a cidade. Turistas e alguns dos 370 mil piracicabanos se espraiavam nas margens, andando e correndo, ou observavam a vida passar nos botecos e restaurantes. Independentemente da tribo, todos desfrutavam, em companhia do rio, o ócio domingueiro que fluía tão fresco e fugaz como um punhado d’água que jorra da bica.
 
O rio Piracicaba é o principal afluente do Tietê e, tal como ele, suas águas revelam algo da alma paulista: elas se lançam ao interior denotando, simultaneamente, a coragem da conquista e a timidez de dar as costas para o mar. Da nascente em Americana à foz em Barra Bonita, seus 250 quilômetros serviram de via expressa para os bandeirantes que adentraram o sertão. A beleza de um salto d’água junto a ilhotas fluviais motivou o povoado em 1767. Se a cidade herdou o nome do rio (ou foi o contrário?), as águas correm em suas artérias: Piracicaba, em tupi, significa o lugar aonde o peixe para. (trecho de "O diálogo fluido", de Fernando Serapião)
 
 
 
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A ocorrência de uma das mais severas estiagens das últimas décadas serviu de alerta para o fato de que a maior parte do mundo, e o Brasil em particular, tem uma atitude em relação à água que não é compatível com a sustentabilidade do planeta. Chegou a hora de mudar radicalmente a cultura do desperdício.
 
Há um duplo desperdício: tanto na produção de água tratada quanto em seu consumo. No tocante à produção, as perdas de água são enormes. As empresas de saneamento no Brasil deixam de faturar algo próximo a 37% de tudo que é produzido. Em alguns estados as perdas superam 50%, 60% e, às vezes, 70%! (trecho de "Desperdício de água: terminou o mundo da fantasia", de Gesner Oliveira)
 
 
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Uma análise, superficial que seja, de alguns dos problemas de gestão urbana é capaz de revelar que as estrutura de governo e de administração pública atuais são inadequadas para lidar com eles. Diferentes níveis de governo raramente cooperam. Pior ainda, no mesmo nível de governo, “panelinhas” administrativas estão em toda parte, e cada departamento desconhece completamente o que os outros estão fazendo. O poder financeiro ainda se concentra nas mãos dos governos estaduais e federais. Não há dúvida de que podemos fazer melhor do que isso.
 
Mas como? Sempre que eu faço esta pergunta a pessoas que vivem em áreas urbanas, a resposta que recebo é, invariavelmente, “o governo municipal, é claro”.  Uma das grandes mudanças das últimas décadas, em todo o mundo, é que populações urbanas passaram a compreender que conselhos e administrações municipais são diferentes de governos estaduais e federais. A cidade e as regiões metropolitanas formadas por aglomerados de cidades estão crescendo por seus próprios esforços. (trecho de "A cidade gerida publicamente", de Ashwin Mahesh)
 
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O dilema é este: vivemos no século 21 em um mundo com desafios interdependentes, desafios que são resultado de aquecimento global, das pandemias globais, de mercados globais, de tecnologias globais, do terrorismo global – problemas transnacionais que precisamos enfrentar em escala global –, mas respondemos a essas crises por meio de Estados-nações soberanos formados no século 17 e que são muito inábeis em trabalhar uns com os outros.
 
No meu livro If Mayors Ruled the World, sugeri que talvez seja tempo de mudar o sujeito, isto é, trocar os sujeitos presidentes e primeiros-ministros por prefeitos; Estados-nações por cidades; cidadãos passivos que assistem televisão e votam de vez em quando, achando que isso define democracia, por cidadãos ativos e engajados da sociedade civil que fazem as cidades funcionarem. É tempo de começar a pensar em um instrumento político diferente, e esse instrumento é a cidade. (trecho de "O poder das cidades", conferência de Benjamin Barber)
 
 


COLABORADORES

Ashwin Mahesh

Após descobrir uma estrela como pesquisador da Nasa, Mahesh transformou-se em importante agente de transformação urbana em Bangalore, Índia. Para esta edição, escreveu sobre novos modelos de gestão urbana.

Caio Reisewitz

O ensaio fotográfico publicado nesta edição da Monolito, que tem como tema as águas das cidades brasileiras, é um extrato do livro Água escondida (BEI Editora/Instituto Moreira Salles), que Reisewitz lançou durante o Arq.Futuro.

Francesco Perrotta-Bosch

Arquiteto e ensaísta, Perrotta-Bosch venceu em 2013 o concurso de ensaios da revista Serrote. Em sua primeira colaboração para Monolito, realizou as entrevistas desta edição.

Gesner Oliveira

Economista e ex-presidente da Sabesp, Oliveira participou das edições do Arq.Futuro de Piracicaba e São Paulo e escreveu para esta edição da Monolito um artigo sobre o desperdício de água.

Laura Greenhalgh

Diretora do Arq.Futuro, Laura é a editora-convidada desta edição. Formada em jornalismo pela ECA-USP, com especialização na Universidade Stanford (EUA), ela fundou o cadernos Sabático e Aliás quando editora-executiva do jornal O Estado de S. Paulo.


SUMÁRIO

Textos
Apresentação: "Um tema que não se esgota", Equipe Arq.Futuro
Reportagem: "O diálogo fluido", de Fernando Serapião
Artigo: "Desperdício de água: terminou o mundo da fantasia", de Gesner Oliveira
Entrevista: Tim Duggan, por Francesco Perrotta-Bosch
Artigo: "A cidade gerida publicamente", de Ashwin Mahesh
Entrevista: Liu Thai Ker, por Francesco Perrotta-Bosch
Entrevista: Alexandros Washburn, por Francesco Perrotta-Bosch
Conferência: "O poder das cidades", por Benjamin Barber

Ensaio fotográfico
Caio Reisewitz

Obras selecionadas
Projeto Beira-Rio (2004/_), Piracicaba, SP
Molhes do Douro (1999/2009), Porto, Portugal, Carlos Prata
Water Rings Pavilion (2014/_), Rio de Janeiro, Carlo Ratti Associati
Projetos de ajuda a desastres (1994/2014), Shigeru Ban
Parque Ecológico da Pampulha (2002/2004), Belo Horizonte, Gustavo Penna, Mariza Machado Coelho e Álvaro Hardy
Córrego do Antonico (2008/_), São Paulo, MMBB Arquitetos
Parque Linear do Córrego Verde (2011/_), São Paulo, Davis Brody Bond
Hidroanel Metropolitano (2011), São Paulo, Grupo Metrópole Fluvial - FAU/USP
Cidade sobre aquífero (2011/_), Rio Branco, Eiji Hayakawa Architects
Parque Capibaribe (2013/_), Recife, Semas/UFPE/InCity


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