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VILANOVA ARTIGAS E A FAU/USP


R$ 89,00
Há 100 anos nascia João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), mentor da Escola Paulista. Perseguindo a originalidade, sua obra arquitetônica começou eclética, flertou com os norte-americanos e com as curvas dos colegas cariocas. Mas ela se consolidou em concreto bruto, introspectiva e fluida, expondo conflitos sociais e ideológicos. Buscando uma resposta para a arquitetura brasileira, ele criou sua obra-prima, o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), personagem coadjuvante desta narrativa e palco de relevantes debates da matéria.

Na manhã do dia 3 de fevereiro de 1969, enquanto 750 estudantes se deslocavam com dificuldade até a longínqua e despovoada Cidade Universitária, um Karmann-Ghia verde garrafa com capota branca varou em alta velocidade pouco mais de 10 quilômetros para chegar ao mesmo destino. Ao afastar-se da garagem de uma casa no Campo Belo, o veículo chapa 100-01 já cheirava a cigarro. O odor impregnado no estofado de courvin se confundia com o Tabac Blond, o perfume do motorista: um arquiteto de 53 anos, que manejava o volante preto. Quando estava com a mão direita livre do câmbio, ele acertava os óculos modernos, preto e sem aro por baixo, e punha o cabelo de fios longos no lugar. Ele vestia terno cinza escuro e calçava sapato preto reluzente. O nó da gravata quadriculada, vinho e preto, estava frouxo e as pontas da gola da camisa branca, levantadas. O incomum desleixo traduzia a ansiedade com o relógio. 
 
Os estudantes também estavam aflitos, esperando o instante de entrarem no monólito de concreto. A ausência de porta no edifício transformava em barreira os funcionários parados na frente da primeira rampa. O acesso era controlado por Rimas, o bedel da escola, que deixava só os professores passarem. Quando liberada, a estudantada subiu apreensiva quatro lances com piso de borracha. Nem mesmo a ansiedade permitiu que esse grupo pioneiro ignorasse a eloquência espacial da impressionante promenade architecturale, patenteada pelo vazio de 15 metros de altura. Se por fora é uma fortaleza, como observou o mestre de obras português que a construiu, por dentro é uma maravilha: a cobertura de oito mil metros quadrados deixa a luz natural peneirar a laje, numa retícula de 960 vãos. “Um teto iluminante”, como alguém já disse. (trecho de “O ativista”, de Fernando Serapião)

 
 
 
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O campo de ação do arquiteto, nas condições do mundo contemporâneo, amplia-se cada vez mais. Não se trata de uma avaliação quantitativa – mais casas, mais cidades, mais serviços necessários. Seria afirmar o óbvio. Meu ponto de vista é o da estética. E, melhor dito, significaria: as artes ganham, cada vez mais, raízes novas na vida social. O campo especulativo das artes se amplia. Seu interesse pela universalidade dos objetos, alguns deles tradicionalmente afastados das especulações estéticas, mostra o homem através da arte explorando e modificando o mundo físico e social com novos instrumentos. (trecho de “O desenho”, do Vilanova Artigas)

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O problema do desenho tem muito a ver com a nossa emancipação política.
 
Ele se confunde com o desígnio de forjarmos uma cultura humanística.
 
Bem sabemos que a palavra “desenho” tem, originariamente, um compromisso com a palavra “desígnio”. Ambas se identificavam. Na medida em que restabelecermos, efetivamente, os vínculos entre as duas palavras, estaremos também recuperando a capacidade de influir no rumo do nosso viver. Assim, o desenho se aproximara da noção de “projeto” (pro-jet), de uma espécie de lançar-se para a frente, incessantemente, movido por uma “preocupação”. Essa “pré-ocupação” compartilharia da consciência da necessidade. Num certo sentido, ela já assinala um encaminhamento no plano da liberdade. Desde que se considere a preocupação como resultante de dimensões históricas e sociais, ela transforma o projeto em “projeto social”. (trecho de “Desenho e emancipação”, de Flávio L. Motta)
 
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A afirmação da profissão e a preocupação com o ensino marcaram a atuação de Vilanova Artigas, figura central da história da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). O desenho do edifício-sede da faculdade, na Cidade Universitária, começou a ser concebido em 1961, quase simultaneamente à primeira reforma do ensino, que privilegiou a interdisciplinaridade, abrangendo desde o desenho industrial até o urbanismo. (trecho de “O templo-escola”, de Ana Paula Pontes)



COLABORADORES

Ana Paula Pontes

Formada na FAU/USP em 1993, Ana Paula foi uma das criadoras da revista universitária Caramelo. É professora no Mackenzie e seu artigo nesta edição da Monolito relaciona a obra-prima de Artigas com a arquitetura clássica.

Cristiano Mascaro

Orientado por Artigas quando concluiu a FAU, Mascaro dirigiu o laboratório audiovisual da escola por 14 anos. Nesta edição, ele assina retratos, o registro da volta à FAU e um ensaio inédito, da recuperação estrutural.

Flávio Lichtenfels Motta

Um dos principais interlocutores de Artigas na FAU, Motta é formado em pedagogia. É autor do texto “Desenho e emancipação”, publicado originalmente em 1967 e é um contraponto ao ensaio “O desenho”.

José Moscardi

Principal fotógrafo de Artigas, Moscardi (na foto, ao lado de seu assistente Valdemar) e seu filho documentaram a FAU. Após a morte de ambos (em 1999 e 2013), a tradição fotográfica da família está nas lentes de Marcelo, neto do pioneiro.

Leonardo Finotti

Responsável pelo ensaio fotográfico recente, realizado após a recuperação estrutural da FAU, Finotti passou uma manhã de junho passado registrando o dia a dia do prédio, semanas antes do centenário de Vilanova Artigas.


SUMÁRIO

Textos
Perfil: O ativista, de Fernando Serapião
Ensaio: O desenho, de João Batista Vilanova Artigas
Ensaio: Desenho e emancipação, de Flávio L. Motta
Artigo: O templo-escola, de Ana Paula Pontes

Desenhos
Caderno de desenhos
Desenhos: 1961

Ensaios fotográficos
1969: José Mocardi e José Moscardi Jr.
2014: Cristiano Mascaro
2015: Leonardo Finotti


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