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ESCOLA CARIOCA: ARQUITETURA MODERNA NO RIO DE JANEIRO


R$ 96,00
Alicerce da arquitetura moderna no Brasil, a Escola Carioca foi desenvolvida entre os anos de 1930 e 1960 por projetistas atuantes no Rio de Janeiro. Sua receita mesclava passado nacional com a vanguarda europeia ou, em outras palavras, combinava pormenores luso-brasileiros (como treliças, azulejos e telhados) com o repertório de Le Corbusier (pilotis, brise-soleil e planta livre, por exemplo), toda a mistura recheada com jardins de Roberto Burle Marx e painéis de artistas como Cândido Portinari e Paulo Werneck.

Oposto à violenta expansão urbana que trepa nos morros de Petrópolis, o fundo de vale em torno da rua Doutor Agostinho Goulão parece imune ao tempo. O paralelepípedo e a vegetação encobrindo casas de veraneio comportam-se como um túnel que nos conduz ao início do século 20. Encostado à zona comercial do distrito de Correas e a 10 quilômetros do centro da maior cidade da região serrana do Rio de Janeiro, a pacata via é rota de aventureiros rumo ao pico do Alcobaça, um monólito com 1811 metros de altura dentro do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. A pousada batizada com o nome do pico é outro ímã que atrai turistas à rua. Ela ocupa uma centenária casa normanda, onde forasteiros se sentem no colo da avó, comendo bolo de fubá na cozinha. 
 
Outra casa da rua confunde os ponteiros do relógio: ela é protegida há nove décadas por telhas de barro e observa o mundo através de janelas de madeira emolduradas por azulejos à portuguesa. O estilo neocolonial da morada, corrente arquitetônica de vanguarda nos anos de 1920, que empregava elementos das construções luso-brasileiras, defendia raízes nacionais em oposição ao ecletismo exótico, exemplo do normando da pousada nas cercanias. 
 
 
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Outro disputado concurso foi o da sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), vencida por Marcelo e Milton Roberto. Integrantes de uma notável família de arquitetos, eles são conhecidos como irmãos Roberto ou MMM Roberto, nome do escritório quando se formou Maurício, o terceiro irmão. Em seguida, a dupla venceu a disputa do aeroporto Santos Dumont, vizinho de outro fruto de concurso, corroborando a tese da importância dos certames: a Estação de Hidroaviões, vencida por Attílio Corrêa Lima.
 
O mais velho dos Roberto, Marcelo, venceu a concorrência da ABI aos 28 anos de vida. Dos três, ele era o mais crítico, possuía a formação teórica mais sólida e era o líder. Paulo Santos, colega um pouco mais velho e historiador da matéria, o definiu como irrequieto e nervoso: “Ágil nos movimentos, ágil também de espírito. Instantâneo nas respostas. Exímio conversador. Conferencista brilhante”. Para Jorge Moreira, ele sabia dar colorido ao que dizia. 
 
 
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Le Corbusier subiu ao quarto do Hotel Glória para descansar dos quatro dias a bordo do dirigível. Por ele, como escreveu durante as tratativas, preferiria “tomar bem burguesamente o navio que demora 11 dias que podem se constituir em repouso e meditação”. 
 
O ministro enviou-lhe uma carta solicitando uma avaliação do projeto desenvolvido pela “rapaziada” após a anulação do concurso. Cada jovem tinha uma razão para estar na equipe. Três participaram do concurso: Lucio Costa era o líder, o mais notável entre os modernos, e Affonso Eduardo Reidy e Jorge Machado Moreira impressionaram o político com propostas vanguardistas. Carlos Leão entrou por ser sócio de Costa; Ernani Vasconcellos foi incorporado por Moreira, seu primo e associado; por fim, Niemeyer colocou o pé dentro após protestar com Costa, argumentando que também colaborava em seu escritório.
 
 
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Se os prédios dos Roberto são marcados por painéis artísticos de Paulo Werneck, o edifício Antônio Ceppas possui obras de Burle Marx. Criado por Jorge Moreira, ele também se destaca pelos elementos vazados na fachada, com painéis cerâmicos. Além de estar presente no Pedregulho, de Reidy, essa solução foi usada no Parque Guinle por Lucio Costa, que ali desenhou três edifícios que anteciparam as superquadras de Brasília. 
 


COLABORADORES

Fernando Serapião

O editor da Monolito se surpreendeu com o interior de obras que só conhecia por fora. Além dos apartamentos dos irmãos Roberto, se assombrou com o térreo do edifício Antônio Ceppas, de Jorge Moreira.

Jerônimo de Moraes

Presidente do CAU/RJ, estudou arquitetura no prédio desenhado por Jorge Moreira. Ingressou na Fiocruz, onde estão as obras de Jorge Ferreira, após receber Medalha de Ouro na Quadrienal de Praga.

Leonardo Finotti

Conversando com traficantes e pulando muros, o fotógrafo quase deu a vida por algumas das imagens desta edição. Obcecado por proporções, transpirou para enquadrar obras dos Roberto.

Lucio Costa

Líder intelectual da Escola Carioca, Costa participou de momentos decisivos, como o projeto do Ministério da Educação e Saúde. É autor de textos e prédios fundamentais, como o Parque Guinle.

Marcos de Vasconcellos

Arquiteto e letrista, Vasconcellos registrou em crônicas a cena carioca, escrevendo livros e colunas em jornais como Tribuna da Imprensa. Crítico voraz da verticalização de Ipanema, temia um nova Copacabana.


SUMÁRIO

Textos
Apresentação: Escola Carioca revisitada, de Jerônimo de Moraes
Perfil: O big bang, de Fernando Serapião
Ensaio: Pedregulho, de Lucio Costa
Crônica: Sócio no ócio, de Marcos de Vasconcellos

Obras selecionadas
Associação Brasileira de Imprensa (1936/1938), Marcelo e Milton Roberto
Palácio Gustavo Capanema (1936/1945), Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira e Ernani Vasconcellos
Pedregulho (1946/1950), Affonso Eduardo Reidy
Edifício Júlio Barros Barreto (1947/1950), Irmãos Roberto
Parque Guinle (1948/1954), Lucio Costa
Hospital da Lagoa (1952/1959), Oscar Niemeyer
Casa das Canoas (1953/1954), Oscar Niemeyer
Museu de Arte Moderna (1953/2005), Affonso Eduardo Reidy
Monumento aos Pracinhas (1956/1960), Hélio Ribas Marinho e Marcos Konder Netto
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (1957/1961), Jorge Machado Moreira
Parque do Flamengo (1961/1965), Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle Marx


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